quinta-feira, 2 de julho de 2015

A goiabeira das crianças

A goiabeira da praça morreu. Depois de no mínimo 35 anos de serviços bem prestados às crianças da vila, ela se entregou. O tronco, crescido num canto da praça, ainda sustenta seus galhos secos e retorcidos, sem folhas e sem vida. Não era uma goiabeira qualquer, até porque ela nunca foi muito de dar frutos. Era uma árvore para crianças. Tinha lá uns quatro metros de altura e a divisão do seu tronco em galhos começava a um metro do chão. Era a miniatura de árvore que atraía a criançada.

Noventa e nove por cento das crianças que moraram na vila, alguns hoje com mais de 30 anos, brincaram nos então vigorosos galhos da goiabeira. Meus filhos fizeram isso e citar o nome de todas as crianças preencheria esta página. 

Para elas, subir em seus galhos era como dar os primeiros passos no mundo selvagem. Ali no alto estavam a salvo dos “vorazes” cachorrinhos com quem brincavam. Também era um ato destemido subir perante os colegas. Quem não conseguia era alvo de gozação. O escalador se sentia um verdadeiro Tarzan. Em seus galhos se balançavam, faziam malabarismos, pulavam e muitas vezes deixavam os pais com os cabelos em pé.

Lembro de um vizinho que tinha três filhos. Os dois maiores viviam em cima da árvore mas o menorzinho não conseguia de jeito nenhum. O pai não teve dúvidas, pregou umas tabuinhas na árvore e fez uma escadinha para o moleque subir e sentar no primeiro galho. Foi a glória.

A goiabeira tinha outras funções também. Nas festas juninas, a bancada de comida era colocada sob seus galhos, que também serviam para pendurar as lâmpadas e iluminar as guloseimas. Nada de food trucks. Quem foi a uma festa na Vila São João sabe disso. Estudantes também aproveitaram para montar uma pequena churrasqueira perto da goiabeira. Ficou por lá anos.

Ninguém sabe exatamente o que matou a goiabeira das crianças. Sua morte foi percebida recentemente. Às vezes, acho que ela foi sufocada pelas gigantescas árvores que orbitam ao seu redor e deixam passar pouca luz do sol. Mas não sou especialista em árvores. Às vezes, acho que foi a tristeza de ter sido abandonada pelas crianças das gerações X, Y, Z, que não estão muito interessadas em subir em árvores. Espero que não. 

Outra noite, vândalos deram o golpe final na pobre goiabeira. Da sala de casa, ouvi vozes e o barulho de galhos secos sendo quebrados. Abri a janela e o que vi me deixou muito triste. Dois rapazes, que certamente não têm o menor amor pela natureza, haviam quebrados vários galhos da goiabeira para fazer uma fogueira. Senti como se estivessem quebrando meus braços. Doeu muito. 

Felizmente, sei que a goiabeira deixou um legado na memória de crianças hoje adultas que estão espalhadas pelo mundo. Certamente, ela continua viva e verde em suas lembranças. Quem sabe, uma deles acabe plantando uma goiabeira em seu quintal ou em uma praça.

segunda-feira, 22 de junho de 2015

Último pedido


"E peço, quando eu morrer/ Não me por em cemitério/ Existe muito mistério/ Prefiro um lugar deserto/ E que o zaino paste perto/ Cuidando dos restos gaudérios"

O verso acima é do poema o Gaudério, do gaúcho João da Cunha Vargas (1900 - 1980), e que pouco foi além do aprendizado das primeiras letras. Morte é um tema difícil, mas é muito bem abordada pelo poeta, que teve uma vida simples nos pampas gaúcho. Ninguém gosta de falar sobre o assunto e aposto que muita gente já bateu três vezes na madeira. Pura bobagem. Ela tem dia e hora certa para chegar. 

Não há fuga. E quanto mais o tempo passa, mais ela vai se acercando. 
Lembrei do poeta gaúcho porque recentemente perdi pessoas muito queridas: o pianista Bebeto, o expert em música Sig, e o jornalista Jarson Frank. Os três foram abatidos por uma doença em comum, o câncer. 

A morte do Frank me tocou pelo fato de não vê-lo há muitos anos. Frank foi editor no meu primeiro emprego como jornalista no jornal O Estado, em Florianópolis. Era um homem culto, viajado e muito me ensinou sobre a profissão. Por várias vezes me programei para visitá-lo em Florianópolis, mas nunca concretizei a viagem. E dai veio meu arrependimento. Quando recebi a notícia da morte, era tarde demais.

O Bebeto conheci quando cheguei em Campinas, lá por 1988, por meio da minha mulher. Os dois eram grandes amigos e o Bebeto com frequência nos visitava ou então íamos em seus belos concertos. Professor, pianista e um verdadeiro gênio, fez história com seu talento e seu piano, e assim será lembrado.

O grande amigo Sig, apelido de Eduardo Simondi, era um profundo conhecedor de música e um exímio professor de matemática, além de um sujeito amigo e fraternal. Sabia de cor letras e melodias. Tinha uma vasta coleção de discos e CDs e era apaixonado por samba e chorinho. Mas, melhor de tudo, era um grande cara. Era comum vê-lo percorrendo as ruas de Barão Geraldo a bordo de sua bicicleta, sempre alegre e disposto. 

Mas a morte veio e levou os três. Não vou entrar em questão filosófica ou religiosa sobre a morte. É melhor tratá-la como o poeta Vargas Cunha trata, com respeito e consideração. É dolorida e também inevitável. 

Então, aproveite seu final de semana e visite aquele amigo ou parente que você não vê há muito tempo. Faça isso. Tire um tempo para uma conversa, um gesto de carinho e amizade. Ele vai se sentir acolhido e você vai se sentir bem. Digo isso porque não fiz a lição de casa com um velho amigo. 

E como diz João da Cunha Vargas em seu poema Último Pedido, cujos versos são melodiosamente cantados pelo também gaúcho Vitor Ramil:


Vou me juntar lá no céu / Onde só Deus bate asa / Não quero dar ‘Oh! de casa’
Que a porta grande se tranque / Que me espere no palanque / Churrasco gordo na brasa

segunda-feira, 15 de junho de 2015

Fim de tarde



O fim de tarde tem algo a mais no ar. Uma confraternização involuntária, uma cumplicidade de termos vencido mais uma etapa de nossas vidas. Procuro estar em meio à multidão para ver as pessoas se despedindo do dia, mergulhadas em pensamentos de como foi sua rotina, carregando seus pertences, correndo para pegar o último ônibus para casa. Apesar da pressa e do cansaço os rostos mostram a sensação de mais um dia de dever cumprido.
É quando o sol está encerrando expediente e passando o bastão para a noite, que chega devagar, ainda com sono. É uma troca de turno lenta, marcada por um show de cores no céu, calmaria na natureza e uma mudança nos nossos hábitos. É quando o ritmo enlouquecido do dia cede à serenidade da noite.
É quando os amigos saem do escritório para o happy hour no bar da esquina. As amigas param na porta do prédio para contar as últimas novidades. O operário deixa seu cansaço junto com o uniforme na fábrica e para no boteco da esquina para tomar uma pinga com os amigos. O comerciante fecha a loja e suspira por mais um dia vencido, ou vendido. O estudante sai apressado do trabalho e corre para o seu segundo turno na escola. O calor do dia cede lugar ao frescor da noite. O agasalho que estava na mochila sobe para o corpo.
Gosto de ver a coreografia de passos pelas estreitas calçadas. Do mosaico colorido criado pelas sombrinhas e guarda-chuvas. Das pessoas encolhidas em suas roupas pesadas no frio. Dos namorados que se encontram carinhosamente depois de um dia de trabalho e planejam uma noite amorosa. Da garota que começa a marcar seu programa na esquina. 
As lanternas dos carros lentamente traçam um riscado vermelho e branco na noite da cidade. Motoristas encaram o trânsito confuso e lento com paciência, pois sabem que este é o último obstáculo a vencer em um dia que teve muitos. O passageiro que está espremido dentro de um ônibus sabe que logo estará no aconchego da sua família.
Da janela, marido e mulher observam o movimento da rua. A vizinha larga seus afazeres para conversar com a comadre. Em algum lugar, alguém está sentado em frente de casa observando as pessoas passarem enquanto os últimos raios de sol perdem força atrás da montanha. Mas as cores bonitas do pôr do sol no horizonte também trazem melancolia, nostalgia, lembranças de algo ou alguém, de algum tempo que foi engolido pelo tempo.
É o fim de um ciclo. É um dia, que também cansado, se recolhe para renascer. Amanhã cedinho ele vai nos acordar com seus raios de sol entrando pelas frestas da janela do quarto. Será um lindo dia com um belo final de tarde. Basta saber apreciá-lo.


10/06/2015 - 17h36 - Atualizado em 10/10/2015 - 17h37

segunda-feira, 25 de maio de 2015

La bela polenta


Quando si pianta la bela polenta,
la bela polenta si pianta così,
si pianta così, si pianta così.
Bela polenta così.
Cia cia pum, cia cia pum.
Cia cia pum, cia cia pum.

Nos últimos dias esta cantiga italiana não me sai da cabeça. Também pudera. Estive em Erechim (RS) participando do segundo encontro da famiglia Mazzarolo. Então, imagina a italianada toda reunida, falando Talian (variante da língua vêneta, do norte da Itália), cantando, dançando. Tinha nono, nona e aquelas vastas mesas com muita comida. Só faltou o parreiral como cobertura.


E também teve algumas rusgas, mas de leve, enfim, era um encontro de família italiana, onde todos os exageros são permitidos. E estava frio, então tivemos que tomar vinho para esquentar. Muito vinho.


Obviamente, também rezamos porque a famiglia toda é católica. Veio parente de Roraima, Pernambuco, Minas Gerais, Paraná e Santa Catarina, mas a maioria está concentrada em Porto Alegre e nas redondezas de Veranópolis, na serra gaúcha, onde os primeiros Mazzarolo chegaram por volta de 1880.


O encontro também coincidiu com a comemoração, em maio, dos 140 anos da chegada dos primeiros imigrantes italianos no Rio Grande do Sul. Nas conversas, eram lembrados os primeiros parentes que chegaram ao Estado e as agruras de começar uma nova vida apenas com a roupa do corpo.


A maioria veio do Norte da Itália, onde passava fome, e aqui recebeu um pedaço de terra na serra (os alemães, que tinham chegado antes, ficaram com as melhores áreas).  Começaram derrubando árvores para depois plantar o que comer. Nada fácil. A serra era tão íngreme que, em tom de brincadeira, diziam que plantavam a lavoura com tiro de espingarda e colhiam a laço.


Meus avós, Pietro Davide (que no Brasil foi registrado como Guerino), nasceu em Asolo, província de Treviso, Itália, em 1883, e veio para o Brasil com quatro anos. Foi se alojar na serra gaúcha. Lá conheceu minha nona, a Veneranda Zanon, que também tinha vindo da Itália, casaram e por lá ficaram até morrer, na década de 1960.


O curioso é a mania da família de trocar os nomes. Como já citei, na Itália, meu nono se chamava Pietro Davide, mas no Brasil foi registrado como Guerino. Ninguém sabe porque. Tenho vários tios cujo nome usual é diferente do registrado em cartório. Por exemplo, todos chamavam meu tio de Ermínio, mas seu nome era Gotardo. Também tinha a tia Maria,  que na verdade era Clementina.


Segundo o parente Laurentino, um estudioso da família, o pai registrava um nome, a mãe não gostava e chamava por outro nome, ou o padre dizia que tinha que ter nome de "Santo", aí adotavam outro nome. Meu pai, por exemplo, foi registrado como Massarolo (por erro do cartório, pois o correto é Mazzarolo) e assim surgiu uma nova ramificação na família.


E tudo isso foi conversado com a italianada, quando sobrava espaço, pois contrataram um italiano para animar o encontro e ele não parava de cantar. Bem, de vez em quando parava, mas era para contar anedotas “pesadas”, daquelas que faziam as mamas taparem os ouvidos da criançada.

Foi um em belo encontro, deu para rever antigos parentes e conhecer muitos outros. Teve momentos emocionantes, como lembranças dos meus pais, já falecidos, e o quanto eram queridos pelos parentes. 

No entanto, senti falta da bela polenta, coberta com queijo, salame e esquentada na chapa do fogão. Hummm, saborosa lembrança da infância, mas ali no salão não tinha como fazer. Vamos ver se no próximo, em Foz de Iguaçu, a bela polenta entra no cardápio.

terça-feira, 17 de março de 2015

Familia Mazzarolo realiza segundo encontro em Erechim

A família Mazzarolo, com variação para o sobrenome Massarolo, que descende dos imigrantes italianos Marco Mazzarollo e Giuseppina Dal’Bello, se reunirá para o segundo encontro do clã nos dias 1 e 2 de maio, no Seminário Nossa Senhora de Fátima, em Erechim (RS). O primeiro e animado encontro foi realizado em 15 e 16 de novembro de 2013, na cidade de Veranópolis. Os organizadores prometem repetir a dose com muita alegria e a participação do maior número de parentes. 

Veja abaixo a programação completa do evento, bem como locais de hospedagem. E boa festa a todos.




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