quinta-feira, 14 de julho de 2016

Ônibus bate em poste no centro de Cotegipe




Algo muito sério deve ter acontecido com o motorista para não ter visto este poste imenso no centro de Cotegipe. Ele deve estar há uns 30 anos na ponte sobre o Rio Jupirangaba. Infelizmente, teve feridos.
Vejam a notícia que saiu no JBV Online

Um ônibus da Unesul bateu em um poste de iluminação no centro de Barão de Cotegipe, na tarde desta quinta-feira, 14 de julho, e assustou os passageiros, que faziam a Linha Passo Fundo/Cascavel.
O acidente aconteceu por volta das 14h30min, na Avenida Ângelo Caleffi, quando o veículo manobrava para estacionar na rodoviária do município e as causas ainda são desconhecidas.
De acordo com informações extraoficiais, o motorista teria ficado ferido, mas sem gravidade. Ele foi encaminhado para atendimento médico na Fundação Hospitalar Santa Terezinha em uma ambulância da Secretaria da Saúde da cidade.
Uma passageira e o cobrador também teriam sido levados para receber atendimento médico por reclamarem de dores no corpo.
Por Alan Dias


quinta-feira, 16 de junho de 2016

O poder da música


Que a música tem poderes incríveis todos sabemos, mas o que mais me intriga é a capacidade dela em reavivar fatos do passado por mais longínquos que tenham ocorrido. Você certamente já teve esta experiência. Há explicação científica para a conexão que ela provoca nos neurônios repassando em nossa memória situações agradáveis ou não. Geralmente as desagradáveis a gente procura apagar.

Nada do que estou escrevendo aqui é novidade, mas ontem pela manhã estava fazendo uma atividade quando no rádio tocou uma música da Rita Lee. Instantaneamente a melodia me levou a dezembro de 1979, quando eu e um grupo de amigos fomos para a cidade de Santa Maria estudar para prestar vestibular para a universidade federal. Era nossa primeira experiência fora de casa e por lá ficamos um mês fazendo o intensivão de um cursinho. Naquela época, o vestibular durava quase uma semana. Era uma sequência de quatro ou cinco dias de provas.

Eu e meus amigos ficamos em uma pensão no centro da cidade. Uma senhora de uns 70 anos era responsável pela nossa alimentação e abrigo. Tínhamos aula de manhã e à tarde. No almoço voltávamos para a pensão e nesta hora, todos os dias, um sujeito que morava no prédio ao lado colocava, em alto volume, alto mesmo, a música Mania de Você, de Rita Lee. Eu ficava ali, sentado na escadaria da pensão ouvindo, mesclando a saudades de casa, da família, e vivenciando a primeira experiência solo em uma cidade grande.

Passados mais de 30 anos, toda vez que esta música toca as lembranças daquele período voltam à memória como se tivessem acontecido semana passada. Lembranças boas, dos amigos, de uma época de descobrimento do mundo, da vida, de mim mesmo. A música criou um sentido para este momento, virou uma trilha sonora para um filme construído em minha memória que é ativado quando Rita Lee canta.

É claro, estou citando ela como exemplo, mas muitas outras músicas marcam época, como Não Chores mais (No Woman no Cry), na voz de Gilberto Gil, ou todas de Caetano Veloso, mas aí são outras histórias e outros momentos. Os entendidos em música, como minha mulher, que é musicista, tem explicações para isso. Aliás foi ela que me mostrou que eu e todos nós somos seres musicais.

Nunca cheguei a conhecer o sujeito que colocava a música para toda a vizinhança ouvir, mas só agradeço a ele por ter conseguido marcar, involuntariamente, uma época importante da minha vida. Uma época que só a música pode evocar. É inquestionável o bem que ela nos faz.

quinta-feira, 9 de junho de 2016

Tempestades e ramos de oliveira

Sobreposição de fotos entre 0h21 e 0h25 do dia 5 mostra chuva elétrica  em Campinas
 (Foto: Rafael Coutinho)
Nasci e cresci em uma região do Rio Grande do Sul propensa a grandes tempestades. Volta e meia o céu ficava escuro e chover granizo e destelhar casas era corriqueiro. A destruição em larga escala ocorrida domingo, em Campinas, algo nunca visto, reavivou episódios daquela época.

Como todas construções típicas do interior do Sul do País, morávamos em uma casa feita com paredes duplas de madeira, cujo telhado tinha grande inclinação para evitar acúmulo de neve, coisa que aconteceu umas duas vezes. Seguindo o padrão dos colonos vindos da Europa, elas eram construídas sobre um espaçoso porão, e sob o telhado, havia um grande sobrado. Tudo isso dava uma altura considerável às casas, o que as tornava frágeis diante dos constantes temporais que assolavam e ainda assolam a região Sul.

Naquela época, havia uma crença católica, e acredito que ainda exista, de que a reza das crianças poderia proteger as casas da destruição pelos temporais. Então, era comum as mães acordarem os filhos na madrugada, em plena tempestade, para rezarem a Nossa Senhora.

Era um cenário assustador para crianças e também adultos. Lá fora, o vento torcia as árvores e o granizo batia forte nas paredes, querendo entrar a todo custo. A única luz era das velas e dos relâmpagos que rasgavam insistentemente a escuridão. Quanto maior a trovoada, mais alta era a reza e maior o medo. Enquanto isso, a mãe caminhava pela casa queimando ramos bentos de oliveira em súplica para que o temporal acalmasse.
A força do vento fazia as paredes de madeira rangerem e dava a impressão de que a qualquer momento a casa iria pelos ares, mas era só a sensação de criança, pois estava solidamente cravada no chão. O quadro dantesco tinha como trilha sonora os estrondos das trovoadas.

Hoje já não se comete mais essa injúria com as crianças, mas a queima dos ramos bentos continua. A fé pode ajudar sim, mas o homem precisa se curvar diante da natureza para evitar que esses fenômenos extremos se repitam. Só assim estaremos a salvo de mais desastres. Por muita sorte não tivemos vítimas fatais em Campinas.

Ontem, uma estudante que fazia um trabalho escolar sobre o clima me fez várias perguntas sobre o fenômeno das microexplosões ou tornados, ocorridos em Campinas. Fui explicando a ela o que sabia, até que ela fez a pergunta chave.

— Isso tudo está acontecendo por que a gente está poluindo o planeta Terra?


Crônica publicada no jornal Correio Popular (Campinas, SP) em 09/06/2016

quinta-feira, 5 de maio de 2016

O frio e o fogão a lenha



A chegada do frio resgata detalhes marcantes para quem viveu boa parte da vida na região Sul, alguns pouco conhecidos no restante do País. Desde frutas como o pinhão e a bergamota, até o chimarrão e o velho fogão a lenha. Ingredientes básicos para quem precisava enfrentar uma sensação térmica abaixo de zero diariamente. Mas é por meio do eficiente e indispensável fogão a lenha que todos os ingredientes acima ganham vida.


Não, não é esse fogão de alvenaria que se vê por aqui. É um fogão de ferro, branco, com uma caldeira no lado esquerdo onde ficam litros de água permanentemente quentes, um forninho, uma chapa cobrindo toda sua superfície onde são colocadas panelas e chaleiras, e um buraco onde é embutida uma chaminé que leva a fumaça para fora de casa.

Quem conhece um pouco da região Sul sabe que esse utensílio é básico em todos lares. Além de aquecer a cozinha, é no fogão que se faz café, almoço e jantar. É o ponto central das casas. É ali, na cozinha, ao lado do fogão, que são recebidas as visitas, principalmente nos dias gelados. Sobre a chapa, para não desperdiçar o calor e a lenha, tem sempre pinhão, batata-doce, leite e a chaleira chiando para uso no chimarrão ou chá.

Minha mãe fazia todas comidas sobre esse fogão. O ritual era o seguinte. Meu pai acordava com a geada ainda cobrindo as plantas e ia para a cozinha acender o fogo. A lenha, para não pegar umidade, era guardada em uma caixa atrás ou ao lado do fogão. Quando a cozinha estava aquecida, ele acordava a filharada. Normalmente deixávamos sapatos e meias embaixo do fogão e uma blusa sobre a caixa de lenha para ficarem aquecidos. A essa altura, a mãe já havia preparado nosso café no fogão. A chapa estava coberta com iguarias fortes como polenta com queijo colonial derretido, salame, fortaia (uma omelete típica italiana com queijo colonial e salame), café e chocolate quente. Aquecidos por dentro e por fora, saímos para enfrentar o vento gelado da manhã em direção à escola

Aí então começava o preparo do almoço. As panelas com arroz, feijão, carne, batata e outras delícias cobriam a chapa do fogão. Depois do almoço, a chama diminuía, mas nunca era apagada. As comadres chegavam e a conversa era acompanhada com pipoca, bolos e outras comidas. A noite gelada vinha e a cozinha estava ali, quentinha. A família se reunia em torno do fogão conversando, comendo pinhão assado, ou assistindo um pouco de TV. Os adultos, claro, saboreando um vinho. Nós, crianças, colocávamos bergamotas e laranjas sobre a chapa para tirar um pouco do gelo.

No dia seguinte, o ritual se repetia. E assim ia até o Verão chegar, quando então o fogão era “desligado” no período da tarde. Somente à tarde. Acostumado com o ritmo lento e mais saboroso da comida feita no fogão a lenha, minha mãe usava pouquíssimo a chama a gás. E quando usava, era comum reclamar que a comida havia queimado.

Quando você for para o Sul, repare naquela fumacinha branca que sai da chaminé de uma casa. Ali dentro tem um velho fogão a lenha aquecendo uma família e preparando uma gostosa comida. Coisas do Sul.

sábado, 30 de abril de 2016

A atriz cotegipense Cléo de Páris fala do seu retorno aos palcos


Cléo de Páris, durante o show Phedras por Phedra -
foto: Marcos Aspahan/Divulgação









A entrevista abaixo foi concedida ao site de Miguel Arcanjo Prado  e publicada em 28 de abril de 2016 (www.miguelarcanjoprado.com/) 

Após três anos afastada do grupo Os Satyros, do qual é musa maior, a atriz gaúcha Cléo De Páris está de volta a uma peça da trupe, na praça Roosevelt, em São Paulo, no posto de protagonista de Justine. A obra adaptada e dirigida por Rodolfo García Vázquez a partir de Marquês de Sade encerra a remontagem da Teatralogia Libertina pela companhia, junto de A Filosofia na Alcova, Os 120 Dias de Sodoma e Juliette.

Num começo de noite, sentada em uma mesa na calçada em frente ao Espaço dos Satyros 1, Cléo conversou com o site nesta Entrevista de Quinta, antes de seguir para o ensaio no Estação Satyros. Serena, falou sobre sua volta ao grupo, sobre a crise política que vive o país, sobre a partida da amiga Phedra D. Córdoba e ainda contou a quem pertence atualmente seu coração.


Cléo De Páris em cena de Justine – Foto: André Stefano/Divulgação

MIGUEL ARCANJO PRADO — Como é voltar ao Satyros três anos após Édipo na Praça?
CLÉO DE PÁRIS — É uma alegria, porque eu tenho uma sintonia muito boa de trabalho com o Rodolfo [García Vázquez, diretor do grupo]. Sempre tive. Estou voltando em uma outra situação, com um elenco todo novo, pessoas que não conhecia, um elenco gigantesco, quase 25 pessoas. É um texto que tem muitos personagens, o que é ótimo, porque hoje em dia é muito difícil fazer uma peça que tenha muitos atores. Isso é uma delícia. Quando tem cena de grupo, tem mesmo uma multidão!

E como é trabalhar com a galera nova, que eu chamo de Satyros new generation [risos]?
É muito interessante trabalhar com essa galera que está começando, eles têm um impulso.

Como vê este seu afastamento de três anos do Satyros?
Os meus afastamentos do teatro, minhas crises, são constantes. Eu sempre acho que vou desistir. Então, quando dou essas paradas, eu penso: será que vou conseguir voltar? E voltar com esse gás que eles têm tem sido muito especial, uma maravilha.

Como foi recebida nesta volta?
Eles me receberam muito bem. Ficaram muito felizes de eu trabalhar com eles. Alguns me conhecem e têm admiração. Os que não me conheciam já sabiam da minha trajetória no Satyros, então já tinham um respeito pelo que eu vivi aqui. Ficaram felizes em compartilhar esse momento comigo. Em teatro ninguém nunca é melhor ou mais importante que o outro. Eu aprendo muito mais com eles do que eles comigo. Eles são muito criativos e me dão uma injeção de ânimo. Estou vivendo uma experiência leve e bonita. Somos um elenco tão unido que nada abala.

Foi quanto tempo de ensaio?
Começamos em fevereiro. O Rodolfo queria estrear em um mês. Depois viu que não dava. Teve muitos acontecimentos neste meio termo.

Phedra e a amiga Cléo De Páris ao lado de Phedra D. Córdoba em 2014 – Foto: André Stefano/Divulgação

Incluindo aí a doença e a morte da Phedra D. Córdoba…
Sim… Por consequência do falecimento da Phedra adiamos mais uma semana. Acabou sendo um processo muito rápido e intenso…

Como foi viver este momento com a partida da Phedra?
Foi meio desesperador tudo isso. Na cremação, nós mesmos falamos que não tínhamos cabeça para estrear. Foi muito sofrido para todos nós. A gente sabia que ela estava mal, que foi na melhor hora, para ela não sofrer, mas mesmo assim foi muito rápido. Ela foi para o hospital e no mesmo dia partiu. Não teve aquele tempo assim para a gente se despedir dela, por mais que a gente sabe que fizemos o máximo e demos o máximo para ela. Mas sempre a gente acha que falta um tempinho. Toda vez que vejo essa porta [aponta para a portaria do prédio onde Phedra vivia], que entrava para a casa dela, toda vez que sento aqui nesta mesa, e lembro dela à minha frente com um licor de menta e uma taça de vinho, eu lembro dela. A presença de Phedra está impregnada na praça Roosevelt, sua voz, sua peruca, seu perfume. Ela vai ficar aqui pra sempre.

É verdade.
A Phedra fica como uma força. Ela nos deu uma lição tão grande neste período. A força com que ela encarou, a leveza que ela teve para partir, a gratidão, o respeito. Ela deixa muita força pra gente. E acho que isso acompanha todos nós e a mim especialmente. Numa das vezes que fui ao hospital, ela falou [imitando o modo de Phedra falar]: “Cléo De Páris, você vai fazer Justine, que maravilha!”. Eu falei que estava insegura, e ela me disse que eu faria muito bem. No dia em que ela faleceu eu estava pensando se ela conseguiria ir ver Justine, naquele dia em que você me ligou. Quando você me ligou, eu tinha acabado de pegar a notícia e tinha acabado de pensar nela. Mas ela está aqui, presente, acompanhando a gente naquele palco.



A diva e a musa da Roosevelt: as atrizes Phedra D. Córdoba (à esq.) e Cléo De Páris (à dir.), 
em cenas de Édipo na Praça, na praça Roosevelt, de 2013 
 Fotos: Bob Sousa

E você fez o show Phedras por Phedra, que ela viu pouco antes de morrer, no Oficina, aquela linda homenagem…
O Phedras por Phedra foi o momento mais intenso que eu vivi num palco. Foi catártico, mágico, absoluto. Sabe aquele momento que você fala: não falta nada aqui e agora. Tudo está perfeito, tudo está completo, tudo está em harmonia. Nunca tive tanta certeza disso quanto naquele dia. Era para ela, mas ela foi o show, o acontecimento foi ela estar lá. É inesquecível. Até hoje quando lembro me dá um arrepio. Nunca vou me esquecer desse dia.

Voltando a falar de Justine, você chegou a conversar com a Andressa Cabral, que fez o seu papel na versão anterior?
Não conversei, mas gostaria de conversar. Foi tudo muito atropelado, ela também estava estreando no Antunes, em Blanche. Sempre gostei muito do trabalho da Andressa. Talvez seja para conversar depois. Dos quatro textos do Sade, Justine é o que eu mais gosto. Ele toca de outra forma. Nessa peça a vítima tem voz, não significa que vai ser ouvida e agraciada, porque no Sade os maus é que são agraciados, mas ela tem voz, existe, tem força, luta e acredita. Essa diferença faz da peça até mais cruel de uma certa forma. A nossa montagem tem mais humor e psicologicamente tem mais força.

E qual é a historinha da peça?
Justine é um conto de fadas às avessas. É como se ela estivesse num pesadelo, como uma Alice no País das Maravilhas. São duas irmãs muito ricas, que o pai perde tudo, a mãe morre, e daí cada uma escolhe um caminho: Juliette escolhe o caminho dos vícios e a Justine se mantém virtuosa. A Juliette comete assassinatos, vai enriquecendo, matando maridos, ficando ricas, e a Justine vai seguindo no caminho da bondade e tendo muito infortúnios, mas não desiste. Ela é tão a gente. Como é difícil!


Lorena Garrido é Juliette, a irmã devassa de Justine, papel de Cléo De Páris, a protagonista

Foto: André Stefano/Divulgação

E como você enxerga a peça neste momento de tanta tensão política que vive o país, com o processo de impeachment da presidente Dilma Rousseff e aquela votação no Congresso, que mostrou qual é sua cara?
Acho que é o momento mais perfeito para montar essa peça. O país na mão de pessoas que só estão pensando em seus interesses. Você vê o Cunha [deputado Eduardo Cunha, presidente da Câmara dos Deputados] lá e se pergunta: como ele está na sua posição? E tantas milhões de Justines tentando fazer tudo certo, devolvendo o troco a mais, não falsificando carteirinha de estudante, e estão sempre mal… E tanta gente que desvia verbas e fica tudo bem. Penso como essas pessoas conseguem dormir, tomar café da manhã… É isso que a peça vai falando. A Justine faz tudo sempre certo e parece que o mundo não está para agraciar quem é correto. Ele critica muito a Justiça e a religião, que serve para o mais forte manipular o mais fraco. É muito atual. Sade traça um panorama de como a corrupção se constrói e como o opressor consegue meios cada vez mais facilmente para dominar o oprimido. Gosto de uma frase que li: “o chicote tem dois lados e se torna inútil se faltar uma pessoa em cada um dos lados”. Pensando neste país, neste momento, é muito terrível tudo que vem acontecendo. Eu acho que muita gente vai assistir a peça e se ver na Justine. Eu sou esse brasileiro que está resistindo e não está se deixando corromper, mas não sabe quando um dia vai conseguir o êxito. Parece que o Sade escreveu este texto para ser montado hoje no Brasil.

O que você acha desse clima de jogo de futebol quando o assunto é política?
Virou uma coisa cega. Eu sou desse time e pronto. No dia da votação eu nem liguei a TV. Vi o que as pessoas falavam no Facebook e fiquei com nojo. Não tinha estômago para assistir. Eu pensei: gente, isso parece Copa do Mundo, quando ouvi as vuvuzelas. Não é posição política isso, é posição de torcida. É tão raso, tão pobre e as pessoas não têm mais respeito pelo outro. Às vezes é um amigo seu que, por você ter opinião contrária, te execra, briga com você, te expõe publicamente.

As pessoas estão perdendo os limites éticos?
Sim! É muito triste. Vejo como uma decadência total da condição humana. Não existe o mínimo de respeito. Só no discurso, na prática, todo mundo só está querendo se livrar, se dar bem, mostrar que está certo e tem todo o poder. Todo mundo quer ser poderoso. Quebram-se as relações de confiança, está tudo muito frágil.



Cléo De Páris entre Daiane Brito e Diego Ribeiro em Justine – 

Foto: André Stefano/Divulgação



Como que essa Cléo, que já passou por tudo que você passou, faz teatro hoje?
Sou uma Cléo menos sonhadora do que eu era. O que é muito ruim, porque tira um pouco do que eu tinha. Por isso tenho injeção de ânimo com esses meninos que estão começando. Não acho que tenha perdido a ternura totalmente, mas endureci bastante. Não quero fazer mais qualquer coisa, tem de tocar muito na minha alma. Perdi aquela vaidade de estar em cena. Tem três coisas que não quero na vida em excesso: fama, dinheiro e peito [risos]. Uma vez sonhei que havia colocado silicone e acordei desesperada. Recusei fazer TV. Não tenho essa vaidade de atriz, de querer brilhar no palco. Quis fazer Justine para dizer tudo o que eu penso deste momento no palco. Estou muito forte fazendo este personagem. Estou muito mexida também. Choro muito. Meus sentimentos estão muito confusos.

E de quem é seu coração hoje?
O meu coração hoje é do meu sobrinho Ian. Todo. Eu, quando estou triste, como nesse processo, quando fico chorando, aí penso no Ian e fico mais calma… A gente tem de passar por isso. A vida é um susto. Você tem de passar por isso. Mesmo evitando, você não consegue evitar… Vem da Phedra isso. Quando minhas forças vão se esvaindo, lembro da dignidade da Phedra, da autoestima que ela tinha. Pra frente é que se anda, Phedra era muito isso.

Justine
Quando: Quinta e sexta, 21h; sábado, 23h59. 90 min. Em cartaz por tempo indeterminado
Onde: Estação Satyros – Praça Franklin Roosevelt, 134, Consolação, metrô República, São Paulo – tel. 11 3258-6345
Quanto: R$ 40 (inteira), R$ 20 (meia-entrada) e R$ 10 (moradores da Roosevelt)
Classificação etária: 18 anos



Silvio Eduardo e Cléo De Páris em cena de Justine – Foto: André Stefano/Divulgação

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