quinta-feira, 25 de agosto de 2016

Pokémon GO? Por que não?


Ora, ora, por que não o Pokémon GO? Houve uma época em que a diversão da criançada era caçar borboletas, pegar passarinhos em arapucas e praticar outras “brincadeiras” com animais. Nos olhos de hoje, todas politicamente incorretas.

Então, por que não deixar a criançada e adultos correrem atrás desses estranhíssimos monstrinhos virtuais, com nomes mais estranhos ainda, pelas ruas, parques e praças? Se já não é mais possível caçar borboletas ou passarinhos, que se use a tecnologia para uma diversão sintética. Assim como antigamente vieram os bichinhos virtuais e todas as crianças queriam um, agora a febre mundial é o Pokémon.

O jogo foi inspirado no desenho animado japonês Pokémon, sucesso infantil na década de 1990, que tinha como personagens os monstrinhos Pikachu, Charmander e Squirtle. O game usa realidade virtual associada ao sistema de localização por satélite (GPS) para espalhar os pokémon pelas cidades. A brincadeira é caçar e colecionar os monstrinhos, que só podem ser visualizados e capturados com o smartphone. Uma brincadeira que fez as ações do grupo Nintendo crescerem 90% em um mês.

A ideia é boa. Em vez de deixar o jogador trancado em casa, em frente ao monitor, o objetivo é fazer com que ele se exercite atrás dos bichinhos pelas ruas da cidade. E deu certo. Reportagem do Correio mostrou que o game está unindo pais e filhos na busca conjunta dos bichinhos. Isso é bom. Tira o filho do isolamento e fortalece o contato familiar. 

No Facebook vi um vídeo com o depoimento emocionado da mãe de um jovem autista. O jogo teve o poder de tirá-lo de dentro de casa, levá-lo para a rua e fazer com que interagisse com outras pessoas. Pronto, já valeu. Porém, tem muita gente distraída pelas ruas, com os olhos grudados no celular e sofrendo acidentes. São vários os relatos de pessoas que caíram em lagos, foram atropeladas, assaltadas e multadas enquanto procuravam os Pikachus.



Como nenhum almoço é de graça, as teorias da conspiração levantam alertas contra o jogo. Um deles é a invasão de privacidade. Quando você instala o aplicativo dá permissão para acessar sua lista de contatos, localização precisa ao GPS e leitura de todo o conteúdo gravado no celular. Dados que podem ser usados para várias aplicações comerciais. Ao caçar o inocente bichinho estranho você enviaria, de graça, informações sobre ambientes internos, como de sua casa, apartamento e de órgãos públicos. Isso complementaria o mapeamento mundial de áreas externas feitas pelo Google. 

Bem, o fato é que a partir do momento em que liga seu celular ou computador você já passa informações sobre sua vida pessoal para o “Grande Irmão”, independente do Pokémon GO. Mas quem vai deixar de usar o celular ou de entrar numa rede social? Então, porque não Pokémon GO? Mas, como toda febre, a temperatura já está baixando.

quinta-feira, 14 de julho de 2016

Ônibus bate em poste no centro de Cotegipe




Algo muito sério deve ter acontecido com o motorista para não ter visto este poste imenso no centro de Cotegipe. Ele deve estar há uns 30 anos na ponte sobre o Rio Jupirangaba. Infelizmente, teve feridos.
Vejam a notícia que saiu no JBV Online

Um ônibus da Unesul bateu em um poste de iluminação no centro de Barão de Cotegipe, na tarde desta quinta-feira, 14 de julho, e assustou os passageiros, que faziam a Linha Passo Fundo/Cascavel.
O acidente aconteceu por volta das 14h30min, na Avenida Ângelo Caleffi, quando o veículo manobrava para estacionar na rodoviária do município e as causas ainda são desconhecidas.
De acordo com informações extraoficiais, o motorista teria ficado ferido, mas sem gravidade. Ele foi encaminhado para atendimento médico na Fundação Hospitalar Santa Terezinha em uma ambulância da Secretaria da Saúde da cidade.
Uma passageira e o cobrador também teriam sido levados para receber atendimento médico por reclamarem de dores no corpo.
Por Alan Dias


quinta-feira, 16 de junho de 2016

O poder da música


Que a música tem poderes incríveis todos sabemos, mas o que mais me intriga é a capacidade dela em reavivar fatos do passado por mais longínquos que tenham ocorrido. Você certamente já teve esta experiência. Há explicação científica para a conexão que ela provoca nos neurônios repassando em nossa memória situações agradáveis ou não. Geralmente as desagradáveis a gente procura apagar.

Nada do que estou escrevendo aqui é novidade, mas ontem pela manhã estava fazendo uma atividade quando no rádio tocou uma música da Rita Lee. Instantaneamente a melodia me levou a dezembro de 1979, quando eu e um grupo de amigos fomos para a cidade de Santa Maria estudar para prestar vestibular para a universidade federal. Era nossa primeira experiência fora de casa e por lá ficamos um mês fazendo o intensivão de um cursinho. Naquela época, o vestibular durava quase uma semana. Era uma sequência de quatro ou cinco dias de provas.

Eu e meus amigos ficamos em uma pensão no centro da cidade. Uma senhora de uns 70 anos era responsável pela nossa alimentação e abrigo. Tínhamos aula de manhã e à tarde. No almoço voltávamos para a pensão e nesta hora, todos os dias, um sujeito que morava no prédio ao lado colocava, em alto volume, alto mesmo, a música Mania de Você, de Rita Lee. Eu ficava ali, sentado na escadaria da pensão ouvindo, mesclando a saudades de casa, da família, e vivenciando a primeira experiência solo em uma cidade grande.

Passados mais de 30 anos, toda vez que esta música toca as lembranças daquele período voltam à memória como se tivessem acontecido semana passada. Lembranças boas, dos amigos, de uma época de descobrimento do mundo, da vida, de mim mesmo. A música criou um sentido para este momento, virou uma trilha sonora para um filme construído em minha memória que é ativado quando Rita Lee canta.

É claro, estou citando ela como exemplo, mas muitas outras músicas marcam época, como Não Chores mais (No Woman no Cry), na voz de Gilberto Gil, ou todas de Caetano Veloso, mas aí são outras histórias e outros momentos. Os entendidos em música, como minha mulher, que é musicista, tem explicações para isso. Aliás foi ela que me mostrou que eu e todos nós somos seres musicais.

Nunca cheguei a conhecer o sujeito que colocava a música para toda a vizinhança ouvir, mas só agradeço a ele por ter conseguido marcar, involuntariamente, uma época importante da minha vida. Uma época que só a música pode evocar. É inquestionável o bem que ela nos faz.

quinta-feira, 9 de junho de 2016

Tempestades e ramos de oliveira

Sobreposição de fotos entre 0h21 e 0h25 do dia 5 mostra chuva elétrica  em Campinas
 (Foto: Rafael Coutinho)
Nasci e cresci em uma região do Rio Grande do Sul propensa a grandes tempestades. Volta e meia o céu ficava escuro e chover granizo e destelhar casas era corriqueiro. A destruição em larga escala ocorrida domingo, em Campinas, algo nunca visto, reavivou episódios daquela época.

Como todas construções típicas do interior do Sul do País, morávamos em uma casa feita com paredes duplas de madeira, cujo telhado tinha grande inclinação para evitar acúmulo de neve, coisa que aconteceu umas duas vezes. Seguindo o padrão dos colonos vindos da Europa, elas eram construídas sobre um espaçoso porão, e sob o telhado, havia um grande sobrado. Tudo isso dava uma altura considerável às casas, o que as tornava frágeis diante dos constantes temporais que assolavam e ainda assolam a região Sul.

Naquela época, havia uma crença católica, e acredito que ainda exista, de que a reza das crianças poderia proteger as casas da destruição pelos temporais. Então, era comum as mães acordarem os filhos na madrugada, em plena tempestade, para rezarem a Nossa Senhora.

Era um cenário assustador para crianças e também adultos. Lá fora, o vento torcia as árvores e o granizo batia forte nas paredes, querendo entrar a todo custo. A única luz era das velas e dos relâmpagos que rasgavam insistentemente a escuridão. Quanto maior a trovoada, mais alta era a reza e maior o medo. Enquanto isso, a mãe caminhava pela casa queimando ramos bentos de oliveira em súplica para que o temporal acalmasse.
A força do vento fazia as paredes de madeira rangerem e dava a impressão de que a qualquer momento a casa iria pelos ares, mas era só a sensação de criança, pois estava solidamente cravada no chão. O quadro dantesco tinha como trilha sonora os estrondos das trovoadas.

Hoje já não se comete mais essa injúria com as crianças, mas a queima dos ramos bentos continua. A fé pode ajudar sim, mas o homem precisa se curvar diante da natureza para evitar que esses fenômenos extremos se repitam. Só assim estaremos a salvo de mais desastres. Por muita sorte não tivemos vítimas fatais em Campinas.

Ontem, uma estudante que fazia um trabalho escolar sobre o clima me fez várias perguntas sobre o fenômeno das microexplosões ou tornados, ocorridos em Campinas. Fui explicando a ela o que sabia, até que ela fez a pergunta chave.

— Isso tudo está acontecendo por que a gente está poluindo o planeta Terra?


Crônica publicada no jornal Correio Popular (Campinas, SP) em 09/06/2016

quinta-feira, 5 de maio de 2016

O frio e o fogão a lenha



A chegada do frio resgata detalhes marcantes para quem viveu boa parte da vida na região Sul, alguns pouco conhecidos no restante do País. Desde frutas como o pinhão e a bergamota, até o chimarrão e o velho fogão a lenha. Ingredientes básicos para quem precisava enfrentar uma sensação térmica abaixo de zero diariamente. Mas é por meio do eficiente e indispensável fogão a lenha que todos os ingredientes acima ganham vida.


Não, não é esse fogão de alvenaria que se vê por aqui. É um fogão de ferro, branco, com uma caldeira no lado esquerdo onde ficam litros de água permanentemente quentes, um forninho, uma chapa cobrindo toda sua superfície onde são colocadas panelas e chaleiras, e um buraco onde é embutida uma chaminé que leva a fumaça para fora de casa.

Quem conhece um pouco da região Sul sabe que esse utensílio é básico em todos lares. Além de aquecer a cozinha, é no fogão que se faz café, almoço e jantar. É o ponto central das casas. É ali, na cozinha, ao lado do fogão, que são recebidas as visitas, principalmente nos dias gelados. Sobre a chapa, para não desperdiçar o calor e a lenha, tem sempre pinhão, batata-doce, leite e a chaleira chiando para uso no chimarrão ou chá.

Minha mãe fazia todas comidas sobre esse fogão. O ritual era o seguinte. Meu pai acordava com a geada ainda cobrindo as plantas e ia para a cozinha acender o fogo. A lenha, para não pegar umidade, era guardada em uma caixa atrás ou ao lado do fogão. Quando a cozinha estava aquecida, ele acordava a filharada. Normalmente deixávamos sapatos e meias embaixo do fogão e uma blusa sobre a caixa de lenha para ficarem aquecidos. A essa altura, a mãe já havia preparado nosso café no fogão. A chapa estava coberta com iguarias fortes como polenta com queijo colonial derretido, salame, fortaia (uma omelete típica italiana com queijo colonial e salame), café e chocolate quente. Aquecidos por dentro e por fora, saímos para enfrentar o vento gelado da manhã em direção à escola

Aí então começava o preparo do almoço. As panelas com arroz, feijão, carne, batata e outras delícias cobriam a chapa do fogão. Depois do almoço, a chama diminuía, mas nunca era apagada. As comadres chegavam e a conversa era acompanhada com pipoca, bolos e outras comidas. A noite gelada vinha e a cozinha estava ali, quentinha. A família se reunia em torno do fogão conversando, comendo pinhão assado, ou assistindo um pouco de TV. Os adultos, claro, saboreando um vinho. Nós, crianças, colocávamos bergamotas e laranjas sobre a chapa para tirar um pouco do gelo.

No dia seguinte, o ritual se repetia. E assim ia até o Verão chegar, quando então o fogão era “desligado” no período da tarde. Somente à tarde. Acostumado com o ritmo lento e mais saboroso da comida feita no fogão a lenha, minha mãe usava pouquíssimo a chama a gás. E quando usava, era comum reclamar que a comida havia queimado.

Quando você for para o Sul, repare naquela fumacinha branca que sai da chaminé de uma casa. Ali dentro tem um velho fogão a lenha aquecendo uma família e preparando uma gostosa comida. Coisas do Sul.

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